E depois nada.
Não é crime, não é ridículo e, sobretudo, não é raro.
Numa vida inteira a gerir viagens, já vi pessoas verdadeiramente corajosas transformarem-se em estátuas ao primeiro aviso de turbulência. E já vi o contrário: pessoas destemidas em quase tudo, mas que organizaram as férias, os negócios e até os casamentos da família dentro de um raio de mil ou dois mil quilómetros.
Não por amor à estrada. Por medo do avião.
O mapa delas termina onde termina o depósito de combustível. A Europa é grande, dizem. É. Mas o mundo é maior, e há uma diferença considerável entre escolher não ir e não conseguir ir.
Hoje é sobre isso. Sobre voar e sobre ter medo de voar.
Trabalho no turismo desde 1986. Desde 2003, através da Travel Gate, ajudo empresas, executivos e famílias a organizar e acompanhar as suas viagens.
Ao longo deste percurso, vi pessoas com medo genuíno que, mesmo assim, se sentaram, apertaram o cinto e voaram.
Essas são as pessoas corajosas.
Coragem não é não ter medo. É ter medo e ir na mesma.
Também conheci pessoas que atravessam a vida sem pestanejar, mas verificam três vezes se a porta de casa ficou trancada. Cada um tem o seu monstro debaixo da cama.
O meu, durante muitos anos, teve asas.
O medo alimenta-se da imprecisão. Por isso, uma das formas de o enfrentar é substituir parte do desconhecido por informação concreta.
O avião é hoje uma das formas de transporte público mais seguras do mundo. Isto não é uma opinião de agência de viagens. É o resultado de décadas de evolução tecnológica, formação, manutenção, regulamentação e controlo operacional.
Segundo o Relatório Anual de Segurança da IATA relativo a 2025, a aviação comercial transportou pouco menos de cinco mil milhões de passageiros em 38,7 milhões de voos.
Nesse ano, a taxa global foi de 1,32 acidentes por cada milhão de voos. Em 2005, essa taxa era de 3,72 acidentes por milhão.
Um acidente continua a ser um acidente, e nenhum número apaga a sua gravidade. Mas, quando se observam dezenas de milhões de voos realizados todos os anos, percebe-se que os acontecimentos graves permanecem estatisticamente raros e que a tendência de longo prazo continua a ser de melhoria da segurança.
Não admira que os pilotos gostem de dizer, meio a brincar, meio a sério, que uma das partes mais arriscadas da viagem é o percurso de automóvel até ao aeroporto.
O medo de voar, porém, raramente é apenas sobre estatística.
É também sobre controlo.
Lá em cima, quem pilota não somos nós. Para muitas pessoas, essa ausência de controlo é mais difícil de aceitar do que qualquer número.

Ou, pelo menos, o dia em que fingi lindamente que tinha deixado.
Foi num voo com duas das minhas filhas, na altura com dois e três anos, sentadas ao meu lado.
Eu, que passava a vida a garantir que os outros viajavam tranquilos, estava ali com o estômago às voltas a cada solavanco.
Só que não podia demonstrar.
Se me vissem com medo, poderiam aprender a ter medo também. E isso, decidi naquele momento, não ia acontecer.
Só Deus sabe o que sofri naquele voo.
Sorri, contei histórias, apontei para as nuvens e, por dentro, rezava um terço a cada mudança de som do motor.
Mas resultou.
Elas cresceram sem medo de voar. E eu, de tanto fingir coragem, acabei por a ter mesmo.
Às vezes é assim que funciona: primeiro finge-se, depois torna-se verdade.
Hoje viajo em paz.
A turbulência, confesso, continua a ser o meu pequeno purgatório pessoal. Nunca compreendi bem esta história dos “buracos” na atmosfera.
No Porto, sim, esses entendo. Estão lá há anos, resistem a todas as obras e alguns já são quase património municipal.
Mas no céu?
A física ainda me devia uma explicação mais convincente.
A física responde que a turbulência é ar em movimento. Pode ser comparada, de forma simples, à ondulação no mar.
Os aviões comerciais são concebidos e testados para enfrentar condições muito superiores às normalmente encontradas durante um voo.
Na maioria das situações, a turbulência não representa uma ameaça para a estrutura do avião.
O principal risco encontra-se dentro da cabine. Um movimento inesperado pode provocar quedas e ferimentos em passageiros ou tripulantes que não estejam sentados e protegidos pelo cinto.
É desconfortável. Pode assustar. Mas o gesto de segurança mais importante continua a ser extraordinariamente simples:
Mantenha o cinto apertado sempre que estiver sentado.
Não existem promessas milagrosas. Existem estratégias que podem ajudar quando são compreendidas e praticadas.
Escolha o lugar com intenção
Os lugares próximos da asa tendem a sentir menos a oscilação do avião.
Quem se sente desconfortável por estar “preso” junto à janela pode preferir um lugar de corredor, que facilita a movimentação e reduz a sensação de confinamento.
Entenda a turbulência antes de a sentir
Saber que a turbulência é normal, monitorizada e prevista ajuda a alterar a forma como o corpo interpreta cada movimento.
O desconforto não significa que o avião esteja em perigo.
Respire devagar e de forma regular
Quando a ansiedade aumenta, a respiração tende a ficar rápida e irregular.
Procure inspirar e expirar lentamente, sem forçar, mantendo um ritmo estável durante alguns minutos.
Ocupe a cabeça, não apenas o corpo
Um filme, um livro, um podcast, música ou uma conversa podem ajudar.
A mente ansiosa precisa de uma tarefa. O vazio deixa espaço para que cada som ou movimento se transforme numa ameaça imaginada.
Fale com a tripulação
As equipas de cabine estão habituadas a apoiar passageiros com medo de voar.
Dizer, logo no início, que se sente ansioso pode tornar a experiência mais tranquila. Pedir apoio não é fraqueza. É bom senso.
Evite excesso de cafeína e álcool
A cafeína pode intensificar os sintomas físicos da ansiedade.
O álcool pode parecer relaxante inicialmente, mas não é uma solução fiável e pode aumentar o desconforto, a desidratação e a ansiedade ao longo da viagem.
Não alimente o evitamento
Evitar todos os voos pode aliviar o medo no momento, mas também pode reforçá-lo.
Sempre que for possível, mantenha um contacto gradual e controlado com a experiência de voar, começando por trajetos mais curtos e simples.
Quando o medo for intenso, essa exposição deve ser acompanhada por um profissional qualificado.

Existe uma diferença entre sentir desconforto ao voar e ter um medo incapacitante.
Quando o medo impede viagens profissionais, visitas à família, férias ou outras decisões importantes, pode valer a pena procurar apoio psicológico especializado.
A terapia cognitivo-comportamental e a exposição gradual são abordagens frequentemente utilizadas no tratamento de fobias específicas, incluindo o medo de voar.
Pedir ajuda não significa que o medo venceu.
Significa que decidiu deixar de organizar a vida em função dele.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação ou o acompanhamento de um profissional de saúde.
Grande parte do desconforto de quem tem medo de voar nasce da incerteza.
Não saber onde vai ficar sentado. Não saber o que esperar de uma escala apertada. Não ter a quem ligar quando algo muda a meio da viagem.
É exatamente aí que uma equipa experiente faz uma diferença que uma plataforma online dificilmente consegue fazer.
Na Travel Gate, a gerir viagens desde 2003, tratamos desses detalhes antes de o avião levantar voo:
O lugar certo, escolhido com critério, próximo da asa para quem procura maior estabilidade ou junto ao corredor para quem precisa de reduzir a sensação de confinamento.
Escalas planeadas com margem, para que a ansiedade de correr para a porta de embarque não se some à ansiedade de voar.
Acompanhamento em cada etapa, com assistência disponível 24 horas por dia, desde o check-in até ao desembarque e perante qualquer imprevisto durante a viagem.
Se voar lhe custa, não precisa de enfrentar sozinho também a organização da viagem.
Conteúdo editorial Travel Gate.

Revisto por Paulo Coelho
Fundador e CEO da Travel Gate, profissional do turismo desde 1986.
Licenciado em Turismo e pós-graduado pela Universidade de Buenos Aires, desenvolve atividade em gestão de viagens e hotelaria na Europa, em África e na América Latina.
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